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Por André Lombardi, facilitador do curso Navegando a Incerteza.

 

Você não precisa ser a pessoa mais atenta do mundo para a sentir na sua pele que a vida não anda fácil para ninguém, que o mundo está de cabeça para baixo e que a possibilidade de um futuro otimista parece soterrada em meio a ficções distópicas e realidades que parecem comprometidas em concretizar esses cenários. O custo afetivo de se viver esse momento da nossa história é oneroso, para dizer um mínimo. Nossa tradição não é a de contemplar a dúvida e criar uma relação de cultivo dela, como um diamante criado por pressão e calor. Não, nossa tradição é a do estreitamento da possibilidade pela busca frenética de respostas e soluções. Porém, a dor que imagino que compartilhamos nesse momento é exatamente a vivência do limite dessa tradição.

 

Essa tradição que nos guia rumo a respostas é mais antiga do que um pensamento moderno e industrial. Vejo muita gente que diz que estamos passando por uma mudança de era, mas acho que isso é só um reflexo de falta de análise histórica. Aquilo que chamamos de uma “cultura digital” ou “sociedade da informação” não é diferente essencialmente (“essência” aqui deve ser entendida como “modo de ser”) do que foi criado na revolução industrial, e, mais ainda, em um processo epistemológico de conhecimento de mundo que começou na Grécia antiga.

 

Existem vários momentos e pensadores que marcam a modelagem da forma como pensamos, mas, para efeitos pedagógicos, vou descrever dois pontos que são fundamentais para nossa “cultura de verdades e respostas”. Primeiro, temos Aristóteles, que disse que, para reconhecer diferenças, algo deve se manter sempre igual. Isso quer dizer que eu só posso dizer que eu perdi peso porque, mesmo com menos peso, eu continuo sendo a mesma pessoa. Essa lógica cria a noção de que as coisas têm essências, uma substância que sempre garante que as coisas continuam sendo elas mesmas. Essa é a base para nosso pensamento metafísico que, para nós, garante que, em algum lugar, existe a essência das coisas, uma essência imutável — a verdade sobre elas, a única verdade que existe.

 

Outro momento importante para nossa tradição é quando Descartes separa o mundo em dois tipos de coisas: Res Cogitans ou “aquilo que pensa” e Res Extensa ou “aquilo que existe ocupando o espaço”. Quando essa separação é feita, o mundo inteiro vira coisa disponível ao uso daquele que pensa. O que vale é o ser pensante, que é divino, e o resto do mundo está a lhe servir. Essa organização de mundo tem duas consequências bem perversas. A primeira é de que existe um “Eu” poderoso dono de si. A segunda é que entendo tudo aquilo que não sou “Eu” como coisa, não importa se estamos falando de outras pessoas. Nossa forma padrão de relação é objetificar para poder se relacionar. Quando objetificamos, reduzimos a totalidade do fenômeno do “ser” a algo que simplesmente “é” e, quando algo “é”, não existe mais dúvida ali, só certeza — e a certeza é a morte da possibilidade.

 

O que nos carece no mundo de hoje não são tecnologias, formas organizacionais, processos descolados de trabalho. O que nos falta é epistemologia. Nos falta crítica. A educação resultante desses pilares do pensamento moderno é uma educação técnica, focada no raciocínio e na solução de problemas. Mas, de acordo com Hannah Arendt, isso não é “pensar”. Nos regimes totalitários, as pessoas também raciocinam e resolvem problemas querendo ser mais eficientes em suas tarefas. A sociedade nazista era operacional, só que não pensava.

 

A técnica é a morte da criatividade, pois ela só se dá no “não fazer”, no pensar, no contemplar e não no produzir. Se a pergunta continuar sendo “como produzir mais, melhor, com mais eficiência?”, nada nunca vai mudar. As perguntas precisam melhorar e temos que ter a coragem de nos questionar “por que produzir?”. Essa contemplação pode ser angustiante, mas é só nela que mora a possibilidade e, juntos, vamos navegar essas incertezas e criar a esperança de um outro futuro.

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